fotografia de passarinho num galho

Dia Mundial da oração – Rezamos o vazio

Fotografia de Łukasz Rawa no Unsplash

O Dia Mundial da Oração comemora-se na primeira sexta-feira do mês de março, este ano é no dia 5, esse é também o dia em que a minha mãe fazia anos. Já há quatro anos que não lhe dou os parabéns, já há três anos que descobri a fé e não lhe posso contar sobre isso.
A perda de alguém que amamos, que nos é querido, que faz parte da nossa vida é algo muito doloroso e pode até, em algumas circunstâncias, gerar uma situação de trauma.
O luto é um processo, uma resposta natural de adaptação à nova realidade, da ausência, do vazio. Sentimentos, mais ou menos intensos, de tristeza, culpa, alienação, ansiedade, medo, irritação, são respostas de luto normais, que podem demorar mais ou menos tempo, quer seja no seu começo, como na sua duração. O importante é saber respeitar mesmo que não entendamos de imediato cada resposta.

Há uma determinada altura em que deixamos de contar os dias, os lugares vagos, as lágrimas, os silêncios… As memórias deixam de estar no nosso pensamento para ficarem marcadas no nosso ser, como parte viva em nós.

Confrontados com a imensidão deste mundo, ficamos como passarinho sem ninho, peregrino sem encosto para a cabeça, barco sem porto para atracar. E é neste vazio que a vida nos empurra para a frente. Neste impulso, resta-nos estender asas e voar de novo.
O nosso coração é coração de passarinho, tão frágil e fácil de quebrar. Bate desordenadamente perante a consciência de que já nada será como foi, mas ainda assim, estamos dispostos a encontrar um recomeço. Uma esperança.

Disse, então: “A que é semelhante o Reino de Deus e a que posso compará-lo? É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e deitou no seu quintal. Cresceu, tornou-se uma árvore e as aves do céu vieram abrigar-se nos seus ramos.”

Lucas 13: 18 – 19

Há quatro anos estava perdida na dor, no vazio da solidão.
Há três anos encontrei a fé em Jesus.
Há dois anos descobri o poder da oração.
Há um ano ganhei um tesouro quando conheci as minhas companheiras de caminhada.
Um dia, o Senhor veio dizer-me ao coração que o caminho não seria fácil, mas jamais seria só. Esta frase que escutei foi uma promessa verdadeira, não só porque o nosso Deus é Emanuel, Deus connosco, mas, porque pela Sua bondade, concedeu-me ainda a graça de poder encontrar uma comunidade de caminhada e de oração e um grupo de amigas e irmãs em Jesus. 

O único vazio que hoje experimento é o do meu coração, quando me preparo para receber Jesus para estar somente só com Ele, no meu momento diário de oração.
Jesus salvou-me, a fé guiou-me e a oração curou-me. A oração é poderosa.

Os tempos que vivemos são tempos de luto. Tempo de luto compartilhado, o corte abrupto na nossa vivência normal, a convivência diária com a dor e perda a todos os níveis, um período de adaptação para reinventar a nossa vida física, social e comunitária, entretanto modificada. 

Cabe-nos a todos nós fazer com que essa adaptação seja feita da melhor forma possível, com apoio mútuo, com caridade ao próximo, com dedicação, com oração contínua e em união fraterna.
Sejamos passarinhos na mão de Deus.

Este ano, no Dia Mundial da Oração, dediquemos cada pedacinho das nossas orações a esta intenção de adaptação, de preencher o vazio.
Deixamo-vos este lindo poema orante do Cardeal José Tolentino de Mendonça.

Rezar o vazio

Ensina-nos, Senhor, a rezar este vazio.
O vazio trazido por um medo que não conhecíamos e que parece agora um inquilino da nossa alma.
O vazio dos espaços confinados.
O vazio da vida, de repente, em suspenso.
O vazio das horas que quem está sozinho conta de forma diferente.
O vazio das incertezas que se amontoam e das quais ainda não falámos.
O vazio dos olhos dos que vemos sofrer e o vazio dos muitos que sofrem sem que nós o vejamos.
O vazio dos cuidadores ao final de turnos extenuantes.
O vazio dos que tiveram de continuar expostos, dia a dia, para que outros ficassem a salvo.
O vazio de tudo aquilo que, de um momento para o outro, ficou adiado.
O vazio daquela mulher idosa que passa o dia com o rosto encostado à janela.
O vazio das ruas donde nos chega um silêncio que não é um silêncio, mas uma espécie de ação de despejo da vida quotidiana. O vazio dos encontros e das conversas.
O vazio que os amigos pressentem.
O vazio das risadas.
O vazio de todos os abraços não dados.
O vazio da espontaneidade dos gestos.
O vazio da proximidade interditada.
O vazio deste verão que está a passar sem que notemos.
O vazio do sacerdote que celebra diariamente na igreja vazia.
O vazio das nossas igrejas onde Tu, Senhor, continuas presente, e dali nos ensinas a transformar os vazios.

Cardeal José Tolentino de Mendonça

8 comentários

  1. Querida Lena, obrigada por mais um texto tão profundo e cheio da sensibilidade própria de uma alma, que devido à sua fragilidade e amabilidade, se deixa conduzir pelo Espírito Santo. Queria também, mais uma vez, agradecer o texto sobre a riqueza da recitação do terço (dezena) ou rosário e o quão libertador pode ser nas nossas vidas de oração. Deus seja louvado por todas estas graças🙏💓

    • Querida Fátima, muito obrigada pelas palavras tão gentis e que também nos dão força para continuarmos.
      Toda a Glória a Deus!
      Caminhamos todas unidas em oração 🙏❤️

  2. Muitas vezes, quando não consigo verbalizar, são as lágrimas que expressam as minhas orações… e Deus entende tudo!
    De lágrimas nos olhos

  3. Querida amiga Lena muito agradecida por mais este texto maravilhoso, tão cheio de carinho, que nos toca a Alma e nos conforta e dá força, coragem para segiir em frente. Obrigada pela tua amizade e que Deus com sua luz nos ilumine e nos guie sempre no bom caminho. Beijinhos e Bem haja ♥️ 🙏🏻😘

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