imagem de escadaria com menino no início

Novo Começo

Fotografia de Jukan Tateisi no Unsplash

A primeira vez que entrei numa igreja sozinha e por vontade própria, sem seguir ninguém, sem compromisso para cumprir, procurava recolher-me no fresco do edifício. Era feriado de agosto e eu saíra de casa para ir caminhar. Não levava comigo destino nem tempo calculado, procurava apenas encontrar no ritmo de cada passo, no cansaço do corpo, um vislumbre de paz que precisava para o meu coração. 

Nas ruas quase não encontrei ninguém. Quando passei na porta da igreja pensei que podia entrar só para me sentar um bocadinho ali, descansar e apanhar um pouco de fresco, não devia estar muita gente lá dentro. E, realmente não estava.

A igreja estava a meia luz e o ar era fresco. Entrei e sentei-me no último banco, não queria ser notada, só descansar um pouco. Permaneci ali um bocado a olhar para baixo, para as mãos, a pensar com os botões. Em determinada altura senti uma mão no ombro, olhei para cima, uma senhora sorria para mim. Não disse nada, entregou-me um folheto e afastou-se. O toque no ombro foi o suficiente para toda a guarda cair, a compostura “ir a banhos” para a praia com o resto das pessoas da cidade e comecei a chorar ali.

No folheto estava a citação de Mateus:

“Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.

Mateus 11: 28-30

Chorei mais. Aquelas palavras eram para mim, cansada da caminhada, cansada da luta, cansada da tristeza, oprimida pelo sofrimento. Quem me poderia aliviar?

Não fiquei mais tempo, saí. Continuei o meu caminho, já de regresso a casa, mais leve, as pernas mais fortalecidas e o coração mais apaziguado. E, no entanto, sem que tivesse percebido realmente que crescia em mim a força de um novo começo. 

Pensei, quando saí de casa para caminhar, que ia sem destino mas, na verdade, olhando à distância destes anos que passaram, naquele dia o caminho já estava invisivelmente preparado para os braços acolhedores da Misericórdia do Senhor.

E depois… depois veio o tempo, veio o dia a dia, vieram outros desafios, outras tristezas e não me lembrei mais.

A segunda vez que entrei numa igreja sozinha e por vontade própria, fui movida pela recordação daquela primeira vez. Já tinha passado um par de anos e foi também num dia de verão. Desta vez saí de casa com o propósito de ir à missa. Desta vez estava a dar a mim mesma a oportunidade de encontrar o meu novo começo ali. Foi a primeira etapa do caminho, a decisão de ir.

Foi a primeira de muitas outras vezes que saí de casa para a igreja, para participar na missa, mas também para assistir a outros encontros, adorações, cursos, formações, concertos, festas. 

Na paróquia de Palhais/ Santo António encontrei a minha comunidade de caminhada, a minha casa acolhedora! Encontrei pessoas que me acolheram de braços abertos, com alegria, sem imposições, sem julgamentos.

A conversão não é um acontecimento, é um processo contínuo de crescimento e aperfeiçoamento, com o objetivo de estar cada vez mais próximo de Jesus. A graça de receber o dom da fé é apenas o início de uma caminhada. É o primeiro degrau da subida.

Depois, tudo é caminho para o encontro pessoal e verdadeiro com Jesus, dia após dia. 

As pessoas que nos acompanham nessa caminhada, nessa escalada são muito importantes.

Hoje, olho para trás e sinto necessidade de agradecer as maravilhas que o Senhor fez na minha vida. Reconheço a forma como se manifesta, dia após dia, nas grandes graças concedidas, mas também nos mais pequenos detalhes, sobretudo nos sorrisos, nas palavras amigas, nas partilhas, nas orações comuns. Recolho-me ao silêncio do meu coração e sinto o milagre da fé a acontecer.

Na imensidão de momentos e de rostos, revejo o novo começo e agradeço.
Agradeço ao padre Tiago Veloso, pela sua iniciativa, pela disponibilidade e abertura no acolhimento a todos os que chegam, por ser incansável em manter a paróquia em constante movimento, promovendo tantas ofertas de formação e de encontro, mas sobretudo por nos orientar sempre no caminho para o encontro pessoal com Jesus. 

E agradeço, muito especialmente, ao Francisco Cercas, porque foi através dele e das suas palavras que a fé tocou o meu espírito pela primeira vez – “… vemos o sofrimento de quem não se ama a si próprio, quando Deus nos ama a todos incondicionalmente”. Esta frase está gravada pelo fogo do Espírito Santo no meu coração. Além disso, ele tornou-se o rosto amigo e paciente na resposta a todas as dúvidas, sempre com caridade nas correções.
É difícil colocar em palavras a gratidão que sentimos por encontrar certas pessoas no caminho por isso, damos graças a Deus por essas pessoas que Ele coloca nas nossas vidas para nos dar a mão, para nos abrir portas, quando a vida nos deixou inertes pela dor.

Deste novo começo, não podia deixar de referir as várias oportunidades de aprender, de crescer e de conhecer pessoas fantásticas, como o Curso do Perdão promovido pelas ESPERE, o Curso de Oração, o Curso Seguir Jesus, os Seminários Vida Nova no Espírito,  o retiro para mulheres promovido pela paróquia, o grupo da ajuda alimentar de Santo António dinamizado pelo Grupo de Oração Cristo Vive, o Grupo de Jesus, a Equipa de Acolhimento, mas, muito em especial, o grupo de jovens Lifeteen Santo António, o Curso Alpha onde tenho a graça de hoje estar ao serviço e o Grupo de Oração Betânia do Renovamento Carismático Católico que foi, e ainda é, o meu refúgio de fé, o meu regaço de reparação e consolo. Foi onde aprendi a louvar e amar Jesus.

Muitas são as pessoas com quem tenho cruzado caminho, são rostos queridos que assolam a minha lembrança, uns passam rápido, outros demoram-se mais e há outros muito especiais, aqueles que caminham lado-a-lado, como aqui, neste grupo a que tenho o privilégio de pertencer –  Mulheres de Samaria

Grata!   

2 comentários

  1. Que lindo testemunho de fé! Um texto que nos prende e comove desde a primeira linha…obrigada por esta partilha! Gostei muito!

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